A Importância da Avaliação Física em Projetos Esportivos de Dimensão Educacional
Escrito por: Dalton Pinheiro Pinto (CREF 011686-G/MG).
1. INTRODUÇÃO
Os projetos esportivos de dimensão educacional e social voltados para crianças e adolescentes desempenham papel estratégico na oportunização da prática esportiva, na promoção da saúde, no desenvolvimento motor e na formação integral de indivíduos, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Essas iniciativas configuram-se como importantes políticas públicas de prevenção em saúde e de garantia do direito ao esporte, conforme assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pelas diretrizes internacionais de promoção da atividade física (BRASIL, 1990; WHO, 2020).
Nesse contexto, a avaliação física sistemática deixa de ser compreendida apenas como um procedimento técnico e passa a assumir caráter pedagógico, preventivo e de gestão. Avaliar possibilita compreender o indivíduo em seu processo de crescimento e maturação, respeitando diferenças biológicas, motoras e sociais, além de subsidiar intervenções mais seguras, equitativas e eficazes em projetos esportivos educacionais (MALINA; BOUCHARD; BAR-OR, 2015; BAILEY et al., 2015).
Evidências científicas demonstram que a aptidão física relacionada à saúde, quando avaliada e estimulada ainda na infância e adolescência, apresenta associação consistente com desfechos positivos ao longo da vida, incluindo melhor perfil cardiometabólico, adequada composição corporal, saúde óssea, capacidade funcional e maior adesão a estilos de vida fisicamente ativos na idade adulta (ORTEGA et al., 2018; RUIZ et al., 2016).
Os projetos esportivos educacionais, por atuarem diretamente com populações em fase de crescimento e desenvolvimento, constituem ambientes privilegiados para o monitoramento dessas variáveis. A avaliação de componentes como estatura, massa corporal, força muscular, velocidade, agilidade e flexibilidade permite identificar indicadores associados a risco à saúde, orientar o planejamento pedagógico e acompanhar a evolução física individual e coletiva dos participantes ao longo do tempo (CATTUZZO et al., 2016; SILVA et al., 2021).
Além disso, estudos indicam que projetos esportivos educacionais que utilizam protocolos padronizados de avaliação física apresentam melhores condições de planejamento, monitoramento e avaliação de impacto social, fortalecendo a transparência institucional, a comunicação com famílias e gestores públicos, bem como a prestação de contas junto a patrocinadores e órgãos de fomento (BAILEY et al., 2015; PATE et al., 2019).
2. DESENVOLVIMENTO
2.1 Avaliação física e aptidão física relacionada à saúde
A aptidão física relacionada à saúde compreende um conjunto de capacidades físicas diretamente associadas à funcionalidade e à qualidade de vida, incluindo composição corporal, força muscular, resistência cardiorrespiratória e flexibilidade. Em crianças e adolescentes, níveis adequados dessas capacidades estão associados à redução do risco de doenças crônicas, melhor desempenho motor e maior participação em atividades físicas regulares (ORTEGA et al., 2018; WHO, 2020).
Nesse sentido, a avaliação física em projetos esportivos educacionais permite monitorar o crescimento e o desenvolvimento físico, identificar situações que demandem atenção, planejar atividades de forma progressiva e individualizada, avaliar a efetividade das intervenções propostas e acompanhar a evolução dos participantes, respeitando suas particularidades maturacionais e contextuais (MALINA; BOUCHARD; BAR-OR, 2015; CASTRO-PIÑERO et al., 2019).
2.2 O protocolo PROESP-BR como referência metodológica e indicadores avaliados
No contexto brasileiro, o Projeto Esporte Brasil (PROESP-BR) configura-se como um dos principais protocolos de avaliação da aptidão física relacionada à saúde e ao desempenho motor em crianças e adolescentes. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o PROESP-BR é amplamente utilizado em escolas, projetos sociais e programas esportivos por apresentar baixo custo operacional, fácil aplicabilidade e normas de referência específicas para a população brasileira (GAYA; GAYA, 2016).
Castro-Piñero et al., (2019); Silva et al., (2021) acrescentam que a adoção do PROESP-BR possibilita a padronização das avaliações, a comparação dos resultados com dados normativos nacionais e o acompanhamento longitudinal da evolução física dos participantes, conferindo maior consistência metodológica e confiabilidade às informações produzidas nos projetos esportivos educacionais.
Gaya; Gaya, (2016) complementam que os indicadores avaliados pelo PROESP-BR abrangem variáveis antropométricas, neuromotoras e cardiorrespiratórias, permitindo uma análise ampla da aptidão física relacionada à saúde em crianças e adolescentes, bem como a identificação de zonas saudáveis e zonas de risco à saúde. Entre as variáveis avaliadas destacam-se estatura, massa corporal, força muscular, resistência cardiorrespiratória, velocidade, agilidade e flexibilidade, conforme parâmetros estabelecidos nas tabelas de referência do protocolo.
2.3 Evidências científicas e contribuições de estudos aplicados
Estudos nacionais e internacionais demonstram elevada prevalência de crianças e adolescentes com níveis insuficientes de aptidão cardiorrespiratória e força muscular, além de percentuais significativos de sobrepeso e obesidade, configurando um cenário preocupante do ponto de vista da saúde pública (ORTEGA et al., 2018; RUIZ et al., 2016).
Evidências produzidas em estudos nacionais reforçam a importância da avaliação física sistemática como ferramenta de monitoramento da aptidão física e do desempenho motor em diferentes contextos esportivos. Pinto (2019) identificou diferenças significativas na capacidade cardiorrespiratória e na potência de membros inferiores entre atletas jovens de futebol e voleibol, evidenciando a necessidade de avaliações específicas para subsidiar o planejamento das intervenções esportivas.
Em análises complementares, Ribeiro et al., (2020) e Pinto et al., (2020) demonstraram que variáveis estruturais e organizacionais do esporte influenciam indicadores de desempenho físico e resultados competitivos, reforçando o papel de análises quantitativas e indicadores objetivos. No âmbito dos projetos esportivos educacionais, Costa, Pinto e Martins (2018) destacam que programas estruturados, quando acompanhados por avaliações sistemáticas, ampliam seu potencial de inclusão social e desenvolvimento integral.
Segundo Silva et al., (2021) e Pate et al., (2019), intervenções sistematizadas, com duração entre quatro e seis meses, promovem melhorias significativas na força muscular, agilidade, coordenação motora e aptidão cardiorrespiratória, reforçando o papel do esporte educacional como estratégia de promoção da saúde.
2.4 Análise comparativa dos resultados, referências do PROESP-BR e implicações para a continuidade dos projetos
O PROESP-BR disponibiliza tabelas de referência estratificadas por idade e sexo, classificando os resultados em zonas saudáveis e zonas de risco à saúde. Essa classificação permite comparações objetivas entre os resultados obtidos nos projetos esportivos educacionais e os valores normativos nacionais, subsidiando decisões pedagógicas, técnicas e de gestão (GAYA; GAYA, 2016; CASTRO-PIÑERO et al., 2019).
De acordo com Silva et al., (2021); BAILEY et al., (2015), a análise comparativa entre os resultados iniciais e finais dos participantes, à luz das referências do PROESP-BR, possibilita interpretar os dados de forma contextualizada, identificando déficits iniciais e avanços decorrentes das intervenções esportivas. Esse processo fortalece a avaliação de impacto dos projetos e evidencia o papel do esporte educacional como estratégia efetiva de promoção da saúde e desenvolvimento motor.
A literatura científica indica que a continuidade dos projetos esportivos educacionais encontra respaldo técnico e científico na análise integrada de múltiplos fatores, tais como os resultados das avaliações físicas, a evolução longitudinal dos participantes, a adesão às atividades, a regularidade da participação, os aspectos pedagógicos e organizacionais do programa, bem como os impactos sociais observados ao longo do tempo. Embora a identificação de participantes em zonas de risco à saúde represente um indicador relevante para o planejamento das intervenções, a decisão pela manutenção e ampliação dos projetos deve considerar o conjunto de evidências produzidas, reforçando o esporte educacional como estratégia permanente de promoção da saúde, desenvolvimento humano e inclusão social (WHO, 2020; PATE et al., 2019).
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A avaliação física, quando integrada de forma sistemática e pedagógica aos projetos esportivos de dimensão educacional, constitui um pilar fundamental para a promoção da saúde, do desenvolvimento motor e da formação integral de crianças e adolescentes. O uso de protocolos validados, como o PROESP-BR, fortalece a qualidade técnica das ações, orienta o planejamento pedagógico, possibilita a avaliação de impacto social e amplia a credibilidade institucional dos projetos (GAYA; GAYA, 2016; BAILEY et al., 2015).
Who (2020) conclui que, conforme destacado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), avaliar não se limita ao ato de mensurar, mas envolve acompanhar, educar e transformar, consolidando o esporte educacional como ferramenta estratégica de desenvolvimento humano e social.
REFERÊNCIAS
BAILEY, R. et al. Physical education and sport in schools: a review of benefits. Journal of School Health, 2015.
BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
CASTRO-PIÑERO, J. et al. Criterion-related validity of field-based fitness tests in youth. British Journal of Sports Medicine, 2019.
CATTUZZO, M. T. et al. Motor competence and health-related fitness in youth. Journal of Science and Medicine in Sport, 2016.
COSTA, P. G.; PINTO, D. P.; MARTINS, N. C. Possibilidades de inclusão social através de um programa esportivo educacional: a percepção dos educadores. FIEP Bulletin.
GAYA, A.; GAYA, A. Projeto Esporte Brasil – PROESP-BR: Manual de aplicação de medidas e testes. Porto Alegre: UFRGS, 2016.
MALINA, R. M.; BOUCHARD, C.; BAR-OR, O. Growth, maturation, and physical activity. Champaign: Human Kinetics, 2015.
ORTEGA, F. B. et al. Physical fitness in childhood and adolescence: a powerful marker of health. International Journal of Obesity, 2018.
PATE, R. R. et al. Long-term benefits of youth physical activity. Journal of Physical Activity and Health, 2019.
PINTO, D. P. Análise comparativa da capacidade cardiorrespiratória e da potência de membros inferiores em atletas de futebol e voleibol. Revista Brasileira de Futsal e Futebol, 2019.
RIBEIRO, C. F. B. et al. The three and six-substitution rules in football: a preliminary comparative analysis. Motriz, 2020.
SILVA, D. A. S. et al. Aptidão física relacionada à saúde em projetos esportivos sociais. Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: WHO, 2020.
Sobre o autor:
Gerente de projetos esportivos do AJUDÔU.
Graduado em Educação Física (Licenciatura Plena).
Pós-graduado em Fisiologia do exercício e Treinamento personalizado.
Pós-graduado em Futebol.
Pós-graduado em Treinamento Esportivo.
Pós-graduado em Gerenciamento de Projetos.
Pós-graduado em Gestão Pública.
Pós-graduado em MBA em Gestão do Esporte.
Graduando em Administração (Bacharelado).

















