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Gestor técnico do Ajudôu durante momento de fala institucional, destacando a importância da liderança, da gestão de pessoas e da organização técnica para a execução qualificada de projetos esportivos sociais. Sua atuação representa a integração entre planejamento, metodologia, acompanhamento de equipes e compromisso com o impacto social por meio do esporte.

O Papel Do Gestor Técnico Na Execução De Projetos Esportivos:

Formação Profissional, Competências e Gestão de Pessoas

Escrito por: Dalton Pinheiro Pinto (CREF 011686-G/MG).

  1. INTRODUÇÃO

A gestão do esporte no Brasil tem avançado significativamente nas últimas décadas, impulsionada pela ampliação dos mecanismos de financiamento, pela consolidação das políticas públicas e pela crescente exigência de transparência e eficiência na aplicação de recursos. Nesse contexto, Mazzei e Bastos (2012); De Bosscher et al. (2015) afirmam que a execução de projetos esportivos passa a demandar não apenas planejamento estruturado, mas capacidade técnica para garantir a efetividade das ações propostas.

No âmbito do terceiro setor, essa complexidade é ainda mais evidente, uma vez que os projetos esportivos acumulam funções educacionais, sociais e institucionais. Assim, a qualidade da execução torna-se fator determinante para o alcance dos objetivos propostos, evidenciando a centralidade do gestor técnico como agente responsável pela operacionalização qualificada das ações.

De acordo com Rocha e Bastos (2011), apesar do avanço da produção científica na área, ainda há limitada sistematização sobre o papel específico do gestor técnico na execução dos projetos esportivos, especialmente no que se refere à articulação entre planejamento pedagógico, gestão de equipes e estrutura organizacional.

Diante disso, o presente estudo busca responder à seguinte questão: qual é o papel do gestor técnico na execução de projetos esportivos e como sua atuação se articula com outras funções de gestão no contexto contemporâneo?

O objetivo é analisar essa função a partir da formação profissional, das competências requeridas e da estrutura organizacional dos projetos, com ênfase na distinção entre funções técnicas, administrativas e gerenciais.

Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, desenvolvida por meio de revisão da literatura e análise documental de referenciais normativos relacionados à gestão de projetos esportivos.

  1. DESENVOLVIMENTO

2.1 Formação profissional e exigências do campo

A formação do gestor técnico deve ser compreendida como um processo contínuo, que articula conhecimentos pedagógicos, administrativos e estratégicos. Embora a graduação em Educação Física seja fundamental para a condução das práticas esportivas, estudos apontam lacunas na formação inicial no que se refere à gestão e liderança (Souza, Silva & Costa, 2018).

Nesse sentido, a literatura recente reforça a necessidade de ampliação das competências profissionais para além do domínio técnico da modalidade, incorporando planejamento, avaliação e gestão de processos (Amaral, Moraes & Bastos, 2024).

Mazzei e Bastos (2012) destacam que a gestão do esporte se consolida como campo específico à medida que incorpora dimensões organizacionais e estratégicas, exigindo profissionais capazes de atuar em ambientes complexos e multidisciplinares.

No contexto dos projetos incentivados, essa exigência é ainda mais evidente, considerando a necessidade de alinhamento entre execução física, financeira e prestação de contas, conforme diretrizes estabelecidas pelos mecanismos de fomento ao esporte (Assembleia Minas Gerais, 2023).

2.2 Competências do gestor técnico

A atuação do gestor técnico demanda a integração de competências técnicas e comportamentais, compreendidas como a capacidade de mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes em contextos organizacionais complexos (Amaral, Moraes & Bastos, 2024).

No terceiro setor, essa atuação ocorre em um ambiente marcado por restrições de recursos, múltiplos atores institucionais e exigências normativas, o que exige elevada capacidade de adaptação e tomada de decisão.

2.3 Competências profissionais

A consolidação das hard skills e soft skills no contexto da gestão esportiva demonstra que o desempenho do gestor técnico não depende apenas do domínio operacional e metodológico, mas também da capacidade de liderar pessoas e construir relações organizacionais eficientes. Enquanto as hard skills garantem a estruturação técnica dos projetos, as soft skills favorecem a mediação de conflitos, a comunicação institucional e o fortalecimento do trabalho em equipe, aspectos essenciais para a sustentabilidade das ações esportivas (Chiavenato, 2014; Santos; Ferreira; Costa, 2020).

Nesse sentido, Amaral, Moraes e Bastos (2024), Mazzei e Bastos (2012), afirmam que a atuação do gestor técnico contemporâneo exige equilíbrio entre competência técnica e inteligência relacional, considerando que projetos esportivos envolvem múltiplos atores, demandas sociais e ambientes organizacionais dinâmicos. A integração dessas competências contribui diretamente para a qualidade da execução, para o alcance dos objetivos propostos e para a profissionalização da gestão esportiva.

2.3.1 Competências técnicas (Hard Skills)

As competências técnicas estão relacionadas à organização e execução do projeto, incluindo:

  • Planejamento estratégico e operacional;
  • Estruturação metodológica;
  • Definição de indicadores;
  • Conhecimento da legislação esportiva;
  • Gestão e acompanhamento orçamentário.

A literatura evidencia que a desconexão entre planejamento técnico e execução financeira compromete a efetividade dos projetos esportivos (De Bosscher et al., 2015).

2.3.2 Competências comportamentais (Soft Skills)

As competências comportamentais estão diretamente relacionadas à condução das equipes e ao funcionamento cotidiano dos projetos.

Entre as principais destacam-se:

  • Liderança;
  • Comunicação;
  • Gestão de conflitos;
  • Inteligência emocional.

Estudos indicam que a qualidade da liderança exerce impacto direto sobre o desempenho organizacional no contexto esportivo (Santos, Ferreira & Costa, 2020).

2.4 Gestão de pessoas como eixo estruturante

No contexto dos projetos esportivos, a atuação do gestor técnico assume papel estratégico na garantia da coerência metodológica e da qualidade da intervenção pedagógica.

Chiavenato (2014) destaca que a gestão eficaz envolve processos estruturados de acompanhamento, comunicação e desenvolvimento, o que, no contexto esportivo, se traduz em:

  • definição clara de funções;
  • reuniões sistemáticas;
  • acompanhamento pedagógico;
  • feedback contínuo.

A ausência desses elementos tende a gerar desalinhamento e queda na qualidade das ações.

De acordo com Chiavenato (2014), a gestão de pessoas constitui o núcleo da atuação do gestor técnico, sendo responsável por garantir a coerência metodológica, a qualidade da intervenção pedagógica e o alinhamento entre os profissionais envolvidos no projeto. Nesse contexto, a capacidade de desenvolver relações interpessoais saudáveis torna-se elemento estratégico para o funcionamento das equipes. A literatura aponta que ambientes organizacionais pautados pelo respeito, pela comunicação clara e pelo diálogo permanente tendem a favorecer maior comprometimento, cooperação e eficiência nas ações desenvolvidas.

Além disso, a atuação do gestor técnico exige sensibilidade para compreender as diferentes realidades, dificuldades e limitações dos profissionais envolvidos, fortalecendo práticas de empatia, escuta ativa e mediação de conflitos. A liderança no contexto esportivo contemporâneo não se restringe à supervisão operacional, mas envolve a construção de um ambiente organizacional equilibrado, capaz de estimular motivação, pertencimento e desenvolvimento humano. Estudos demonstram que a qualidade das relações interpessoais e da comunicação exerce impacto direto sobre o desempenho das equipes e sobre a efetividade dos projetos esportivos (Santos; Ferreira; Costa, 2020; Weinberg; Gould, 2017).

2.5 Estrutura organizacional dos projetos: Coordenação técnica, administrativa e gerencial

A complexidade dos projetos esportivos contemporâneos tem exigido a adoção de estruturas organizacionais mais definidas, com delimitação clara de funções, responsabilidades e fluxos de tomada de decisão. No contexto dos projetos incentivados e das organizações do terceiro setor, a definição adequada dos cargos de gestão contribui diretamente para a eficiência operacional, para a qualidade pedagógica das ações e para o fortalecimento institucional das entidades executoras (Mintzberg, 2003).

No contexto das políticas públicas e dos mecanismos de fomento ao esporte, especialmente nos editais vinculados às Leis de Incentivo ao Esporte, verifica-se a consolidação progressiva de estruturas organizacionais hierarquizadas, compostas por diferentes níveis de coordenação e gerenciamento, com funções específicas voltadas à gestão estratégica, técnica, pedagógica e administrativa dos projetos esportivos

  • Gerente geral: responsável pela supervisão global do projeto, articulação institucional, relacionamento com patrocinadores, parceiros e órgãos públicos, além do acompanhamento estratégico das metas e resultados;

 

  • Coordenador técnico: responsável pela orientação técnica das modalidades esportivas, acompanhamento metodológico das atividades, supervisão dos profissionais de Educação Física e garantia da qualidade das práticas esportivas desenvolvidas;

 

  • Coordenador pedagógico: responsável pela organização didático-pedagógica do projeto, acompanhamento dos processos educativos, alinhamento metodológico das ações socioeducativas e suporte ao desenvolvimento integral dos participantes;

 

  • Coordenador administrativo: responsável pelos processos operacionais, administrativos e logísticos, incluindo controle documental, organização de materiais, cronogramas, comunicação interna e apoio à execução financeira do projeto.

Essa estrutura favorece a distribuição equilibrada das responsabilidades e fortalece os processos de gestão, evitando sobrecarga funcional e reduzindo falhas de comunicação. Além disso, contribui para maior integração entre os setores técnico, pedagógico e administrativo, permitindo que o projeto alcance melhores níveis de organização, monitoramento e efetividade (Chiavenato, 2014).

A formalização dessas funções representa um avanço na profissionalização da gestão esportiva, ao reconhecer que a execução qualificada depende da articulação entre diferentes competências.

No entanto, a realidade prática, especialmente no terceiro setor, ainda evidencia distorções. É comum que funções técnicas sejam ocupadas por profissionais sem formação específica em Educação Física, em razão de limitações orçamentárias ou priorização de perfis administrativos.

Embora profissionais de outras áreas contribuam significativamente para a gestão organizacional – como Administração (Mintzberg, 2003), Serviço Social (Iamamoto, 2007) e Psicologia (Weinberg; Gould, 2017) – a condução das práticas esportivas envolve especificidades pedagógicas, técnicas e de segurança que demandam formação específica (Darido; Rangel, 2005; Brasil, 1998).

Nesse sentido, a distinção entre coordenação técnica e administrativa não deve ser compreendida apenas como divisão funcional, mas como elemento estruturante da qualidade dos projetos. A adequada definição e ocupação dessas funções, considerando o perfil profissional, contribui diretamente para a efetividade das ações.

Sob a perspectiva da interdisciplinaridade, a integração entre áreas deve ocorrer de forma complementar, e não substitutiva (Morin, 2005), garantindo equilíbrio entre gestão organizacional e qualidade pedagógica.

2.5.1 A Atuação interdisciplinar de profissionais de outras áreas na gestão de projetos esportivos

A gestão de projetos esportivos contemporâneos demanda uma atuação interdisciplinar, envolvendo profissionais de diferentes áreas do conhecimento que contribuem para a organização, execução e acompanhamento das ações desenvolvidas. Nesse contexto, profissionais da Administração, Psicologia, Serviço Social e Pedagogia exercem papel relevante na composição das equipes técnicas e gerenciais, especialmente em projetos esportivos de caráter educacional e social (Morin, 2005).

Os profissionais da Administração contribuem diretamente para os processos organizacionais, planejamento estratégico, gestão financeira, logística e estruturação administrativa dos projetos. Segundo Mintzberg (2003), a eficiência organizacional depende da adequada divisão de funções e da integração entre os setores, aspecto fundamental para instituições esportivas que operam com múltiplas demandas operacionais e institucionais.

No campo da Psicologia, a atuação está relacionada ao desenvolvimento humano, às relações interpessoais, ao fortalecimento emocional dos participantes e à mediação de conflitos. Weinberg e Gould (2017) destacam que fatores psicológicos influenciam diretamente o desempenho esportivo, a motivação, o comportamento coletivo e a permanência dos participantes nas atividades esportivas, tornando o acompanhamento psicológico um elemento importante em projetos sociais esportivos.

Segundo Iamamoto (2007), a participação do Serviço Social também se mostra estratégica, especialmente em projetos desenvolvidos no terceiro setor e em territórios de vulnerabilidade social. O assistente social atua na articulação com famílias, redes de proteção social, acompanhamento socioassistencial e fortalecimento comunitário, contribuindo para que o esporte seja compreendido como ferramenta de inclusão e desenvolvimento social.

Vygotsky (1998) Bracht (2011), afirmam que os profissionais da Pedagogia possuem importante contribuição nos processos educativos e metodológicos dos projetos, auxiliando na construção das estratégias pedagógicas, no acompanhamento do desenvolvimento dos participantes e na organização de práticas voltadas à formação cidadã. A integração entre esporte e educação amplia o potencial formativo dos projetos esportivos, especialmente quando articulada a práticas pedagógicas estruturadas.

Entretanto, embora essas áreas contribuam significativamente para a gestão organizacional e socioeducativa dos projetos, é importante destacar que as funções relacionadas diretamente à orientação técnica das modalidades esportivas, supervisão pedagógica das práticas corporais e prescrição das atividades físicas devem respeitar as atribuições legais dos profissionais de Educação Física, conforme previsto na Lei nº 9.696/1998 (Brasil, 1998). Dessa forma, a interdisciplinaridade deve ocorrer de maneira complementar, preservando as competências específicas de cada área profissional.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida evidencia que o gestor técnico desempenha papel estratégico na execução de projetos esportivos, sendo responsável por garantir a coerência entre planejamento e prática.

Sua atuação exige a integração de competências técnicas e comportamentais, além da capacidade de conduzir equipes e processos em contextos complexos.

A estrutura organizacional dos projetos, com distinção entre funções técnicas, administrativas e gerenciais, emerge como elemento central para a qualidade da execução. A adoção dessa estrutura, já presente em instrumentos normativos, contribui para a profissionalização da gestão esportiva.

Entretanto, a realidade prática ainda apresenta desafios, especialmente no que se refere à ocupação inadequada de funções técnicas. A superação dessas limitações passa pela valorização da formação específica, pela qualificação profissional e pela organização clara dos papéis.

Por fim, destaca-se a necessidade de pesquisas empíricas que investiguem modelos de gestão, indicadores de desempenho e impacto dos projetos esportivos, contribuindo para o fortalecimento da gestão técnica como campo estratégico no desenvolvimento do esporte.

 

REFERÊNCIAS

AMARAL, C. M. S.; MORAES, I. F.; BASTOS, F. C. Perfil e competências do gestor do esporte: construção e validação de instrumento de avaliação. Podium: Sport, Leisure and Tourism Review, São Paulo, v. 13, n. 1, 2024.

BORGES, C. N. F.; NASCIMENTO, J. V. Formação profissional em Educação Física: desafios contemporâneos. Movimento, Porto Alegre, v. 22, n. 3, p. 889–902, 2016.

BRACHT, V. Educação física e aprendizagem social. Porto Alegre: Magister, 2011.

BRASIL. Lei nº 9.696, d 1º de setembro de 1998. Dispõe sobre a regulamentação da profissão de Educação Física e cria os Conselhos Federal e Regionais de Educação Física. Diário Oficial da União, Brasília, 1998.

CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.

DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

DE BOSSCHER, V.; SHIBLI, S.; WESTERBEEK, H.; VAN BOTTENBURG, M. Successful elite sport policies: an international comparison of the Sports Policy factors Leading to International Sporting Success (SPLISS 2.0). Maidenhead: Meyer & Meyer Sport, 2015.

IAMAMOTO, M. V. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 2007.

MAZZEI, L. C.; BASTOS, F. C. Gestão do esporte no Brasil: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 295–310, 2012.

MINTZBERG, H. Criando organizações eficazes: estruturas em cinco configurações. São Paulo: Atlas, 2003.

MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.

ROCHA, C. M.; BASTOS, F. C. Gestão do esporte: definindo a área. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 25, n. 1, p. 91–103, 2011.

SANTOS, R.; FERREIRA, H.; COSTA, F. Competências gerenciais no contexto esportivo. Pensar a Prática, Goiânia, v. 23, 2020.

SOUZA, D. L.; SILVA, M. M.; COSTA, F. C. Formação e mercado de trabalho em Educação Física: competências e desafios contemporâneos. Pensar a Prática, Goiânia, v. 21, n. 2, 2018.

TUBINO, M. J. G. Dimensões sociais do esporte. São Paulo: Cortez, 2010.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

WEINBERG, R. S.; GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed, 2017.

Sobre o autor:

Gerente de projetos esportivos do AJUDÔU.

Graduado em Educação Física (Licenciatura Plena).

Pós-graduado em Fisiologia do exercício e Treinamento personalizado.

Pós-graduado em Futebol.

Pós-graduado em Treinamento Esportivo.

Pós-graduado em Gerenciamento de Projetos.

Pós-graduado em Gestão Pública.

Pós-graduado em MBA em Gestão do Esporte.

Pós-graduando em MBA em Gestão de Mudanças e Situações de Crises.

Graduando em Administração (Bacharelado).

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